Conversas que Inspiram

Diálogos semanais sobre infância, aprendizagem, neurodivergência e afeto. Um espaço de escuta e acolhimento com especialistas, educadores e famílias atípicas.

Foto de Fernanda Tavares
Entrevista da Semana

Fernanda Tavares

Pedagoga, Psicopedagoga e Fundadora da Pequenos Passos Psicopedagogia

Mãe Atípica Desenvolvimento Infantil Acolhimento Neurodivergência

Hoje conversamos com Fernanda Tavares, mãe atípica, pedagoga, psicopedagoga e fundadora da Pequenos Passos Psicopedagogia, sobre infância, aprendizagem, neurodivergência e os diferentes jeitos de cada criança perceber e se relacionar com o mundo.

Unindo o olhar profissional à experiência da maternidade, Fernanda compartilha reflexões sobre acolhimento, desenvolvimento e a importância de compreender cada criança para além das dificuldades.

Uma conversa sobre crianças, diferenças e, principalmente, sobre a importância de olhar para cada uma delas em sua singularidade.

Como nasceu o seu interesse pela psicopedagogia e o que a levou a escolher esse caminho profissional?

Minha história com a Psicopedagogia começou de um lugar muito pessoal. Antes de ser uma escolha profissional, ela nasceu das experiências que a maternidade atípica me trouxe e, especialmente, do desejo de compreender melhor as diferentes formas de aprender, sentir e estar no mundo. Descobri na Psicopedagogia não apenas uma nova profissão, mas um propósito. A possibilidade de transformar experiências em conhecimento, conhecimento em acolhimento e acolhimento em caminhos possíveis para outras famílias.

O que você acredita que nunca deveria faltar na infância de uma criança?

O essencial na infância é o vínculo seguro. A infância é o alicerce da nossa história e a fase das descobertas mais profundas. Quando a família garante um ambiente seguro, feito de afeto, escuta e presença, ela não está apenas criando memórias bonitas, está construindo os recursos emocionais e cognitivos que essa criança levará para o resto da vida.

Qual a importância da imaginação para o desenvolvimento das crianças?

A imaginação é essencial para o desenvolvimento infantil porque permite que a criança explore possibilidades, crie, faça perguntas e encontre diferentes formas de compreender o mundo. É também por meio dela que muitas vezes expressa sentimentos e experiências que ainda não consegue colocar em palavras. Preservar a imaginação é também cuidar de uma infância mais criativa e significativa.

Muitas vezes a brincadeira é vista apenas como diversão. Qual é o verdadeiro papel do brincar no desenvolvimento infantil?

Na psicopedagogia, olhamos para a brincadeira como a ponte para o desenvolvimento cognitivo, emocional e social. Quando uma criança brinca, ela está testando hipóteses, resolvendo problemas e aprendendo a ser e estar no mundo. Respeitar e incentivar o brincar é garantir um desenvolvimento saudável.

O que as histórias podem oferecer às crianças que, muitas vezes, outros recursos não conseguem?

As histórias ocupam um lugar muito especial no processo do desenvolvimento infantil. Elas permitem que a criança encontre palavras para sentimentos que ainda não consegue explicar, conheça diferentes possibilidades, desenvolva a linguagem, aprenda sobre empatia e imagine mundos além daquele que conhece. Elas conectam a mente e o coração! Quando contamos uma história, oferecemos à criança a oportunidade de viver a experiência por dentro, acionando a imaginação, a empatia e a sensibilidade emocional de uma forma que nenhum outro recurso alcança.

O que podemos fazer para preservar a curiosidade e imaginação das crianças em um mundo que, muitas vezes, oferece respostas rápidas para tudo?

Em um mundo que oferece respostas prontas para tudo, o maior presente que podemos dar a uma criança é o espaço para perguntar. Como psicopedagoga, vejo que preservar a curiosidade e a imaginação não exige grandes recursos, mas sim presença: ouvir com atenção, permitir o tempo livre e incentivar que ela crie suas próprias hipóteses. Aprender a pensar é muito mais poderoso do que apenas receber respostas. Quando trocamos uma resposta rápida por um 'o que você acha?', damos à criança a chance de explorar, criar e confiar no próprio pensamento. Proteger essa capacidade de se encantar é construir uma base sólida para toda a vida.

Como podemos enxergar além das dificuldades e valorizar as potencialidades de cada criança?

Enxergar potencialidades é reconhecer aquilo que a criança já consegue fazer, aquilo que desperta seu interesse e aquilo que pode se tornar uma ponte para novas aprendizagens. É adaptar estratégias, respeitar a individualidade de cada uma e acreditar que desenvolvimento não acontece de forma igual para todos.

Como a neurodivergência transformou a sua forma de enxergar a infância, tanto como mãe quanto como profissional?

A neurodivergência ampliou profundamente meu olhar sobre a infância. Como mãe, ensinou-me a olhar para cada pequena conquista com outros olhos. Como profissional, ensinou-me que não existe um único caminho para aprender. Hoje, procuro enxergar primeiro a criança e depois a dificuldade, entender os seus interesses, suas potencialidades e suas particularidades. Elas também contam uma história! O diagnóstico é importante, mas ele nunca deve ser maior do que a criança.

Que infância você deseja ajudar a construir através do seu trabalho?

Uma infância em que as crianças possam ser vistas em sua singularidade, respeitadas e acolhidas em suas diferenças. Quero contribuir para que elas tenham espaço para brincar, imaginar, aprender e desenvolver suas potencialidades, sem serem definidas por suas dificuldades. Através do meu trabalho, desejo também acolher as famílias, levando informação e ajudando a construir um olhar mais atento, sensível e respeitoso sobre cada criança.

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